Thursday, February 07, 2008

Vovó com reumatismo

Uma vez, quando criança, Kathy tentou guardar a chuva.

Quando as nuvens pesavam e ficavam cinzas, quando o vento frio e úmido balançava a cortina do seu quarto, quando os ossos da vovó doíam, ela já sabia: Ia chover.

Posicionava-se na janela da sala, que dava para o jardim da casa. Os joelhos no sofá, as mãos ainda pequenas no vidro que, vez ou outra, embaçava por causa de sua respiração quente e tão próxima.

O primeiro pingo caía. Logo outro, e mais outro, fazendo pontos escuros no concreto que impermeabilizou a terra. Só depois que o chão estava todo mais escuro é que se formam as poças, ela teorizou com maestria.

Com as poças começavam a magia das coroas que caem no chão. Pequenos reis e rainhas perdem sua nobreza em ocasiões de chuva. Tudo isto estava muito claro.

Mas bem, um dia Kathy tentou guardar a chuva.

Não a água da chuva, porque isto as bocas de lobo e barras de calça já o fazem muito bem. A chuva mesmo, os pingos caindo, a sua seqüência ritmada, o barulho e, quem sabe, aquele cheirinho que todos amam (na sua existência que data de um pouco mais de duas décadas, Kathy ainda não encontrou viva alma que não goste do cheiro de chuva).

Em mais uma tarde de férias em janeiro, tudo se repetiu. Nuvens cinzas, vento frio, ossos da vovó. Dessa vez, não correu para o sofá. Vestiu sua capa de chuva amarela, com suas botas de chuva azuis e seu guarda-chuva colorido, que mais lembrava um adereço do frevo. Nas mãozinhas, um pote de maionese vazio e com o rótulo semi tirado. Antes de a chuva começar, rodou o pote no ar e pegou o vento. Fechou. Pegou os primeiros pingos. Fechou. Um pouco da poça d’agua. Fechou. E, o mais difícil, capturar as coroas. Mas ela conseguiu.

Tudo guardado no pote. Agora, era simples. Era só esperar para que tudo se separasse novamente. Ela esperou e esperou. Nada aconteceu. Até que se deu conta que tinha esquecido o principal: as nuvens cinzas.

Ficou triste já que, com sua mirrada estatura, nunca conseguiria alcançar as nuvens. A noite, foi dormir na parte de cima do beliche. E suspirou com pequenas lágrimas nos olhos. “Ah, se eu não tivesse medo de avião”.

Monday, January 21, 2008

O C da questão

Kathy sempre foi fascinada pela língua portuguesa. Na escola, era uma das únicas que se mantinha atenta nas aulas da professora Fátima. Aliás, todas as professoras de gramática tinham o poder emitir a voz em um timbre que, se entoado por mais de 10 minutos em um recinto fechado, é capaz de produzir sonolência até em uma coruja insone. Mas Kathy não se importava. Mantinha os olhos abertos, as mãos ágeis e a cabeça viajando em meio a sintaxes, semânticas e onomatopéias.

O tempo passou, a escola acabou, mas hábitos como ler o dicionário, ainda permaneciam. E a mania (era assim que os outros chamavam) de corrigir terceiros. Era capaz de tremer ao ouvir um Para mim + verbo de ação. Aliás, este era um dos motivos dela nunca ver o noticiário esportivo (o amor frustrado com um garoto da equipe de handball da escola também entrava na lista).

Todos os dias, ao pegar o ônibus para ir ao trabalho, Kathy passava por uma casa simples que ostentava a seguinte frase: “Costuras e concertos em geral”.

Ela evitava olhar. Mas todos os dias ela era atraída por aquela placa. Como um imã. Como aquela vontade de olhar um gato morto na estrada, mesmo sabendo que a conseqüência não será boa.

Certo dia, ela não se conteve. Saiu 10 minutos mais cedo de casa para poder bater naquele endereço e alertar sobre o erro crasso. Até se prontificaria para pagar outra placa, se o problema fosse monetário (ela reconhecia a relação de pobreza com falta de escolaridade que o país enfrentava).

Bateu. Nenhuma resposta. Mas da porta dava para ouvir os gritos da máquina de costura batendo em algum tecido rapidamente. Kathy resolveu entrar mesmo assim. Viu uma senhora gorda sentada em uma cadeira anatomicamente imprópria para a sua envergadura. O pé direito, parecia estar inchado, batia no pedal da máquina, enquanto do dedos passeavam rapidamente pelo cetim azul turquesa. Ao parar a máquina, a senhora notou a presença quase invisível de Kathy. Virou-se. Ela logo tratou de explicar o motivo da visita, começando com um pedido de desculpas devido ao atrevimento. Explicou que o certo seria conserto, com S e não concerto com C, já que estes diziam respeito sobre apresentações musicais. A senhora gorda ouviu atentamente. Enquanto Kathy desfiava suas teorias gramaticais, ela foi até a cozinha, pegou um copo d’gua gelada que foi bebido em goles grandes. Até que ela disse:

- Não tem nada de errado com a placa.

Kathy piscou seguidamente duas, talvez três vezes. Tombou a cabeça de lado e, atônita, exclamou:

- Como não?

Então, a senhora gorda começa a cantar. Cantar uma ópera. 2 minutos depois emenda com uma música da Ivete Sangalo, depois Whitney Houston, Maria Rita e termina com um pedaço de Djavan. Oceano.

- Viu? Concertos em geral.

Friday, January 11, 2008

Sobre Chocolates, Espetos e Acelgas

“Os homens são todos iguais”.

Kathy é assim. Ao menor sinal de perigo, ela se agarra ao clichê mais próximo. É mais simples assim e tem o eficiente ingrediente “lavador de alma” em que a conclusão é “estava certa o tempo todo”.

Incrível que clichês apesar de tão repetidos, não são entendidos ou aprendidos. O ferreiro já deve ter ouvido por aí que o seu espeto é feito de pau. Mas, ao que tudo indica, nada faz para alterar a fama, fazer as coisas certas desta vez e oferecer finalmente um churrasco com espetos de ferro que todos invejem.

Até pensei em dizer isto para Kathy quando nos reencontramos. Mas, ela tinha novidades. Havia encontrado alguém. Um novo alguém, porque um velho alguém é um ninguém.

Em meio à salada e ao refrigerante de baixas calorias, ela gesticulava, sorria, e engolia folhas e folhas de acelga com prazer. Pensei em dizer a ela a minha teoria. Mas não havia possibilidade de eu ameaçar a dieta dela e forçá-la a voltar para os chocolates. Sorri igualmente, mas farejei o perigo. Ela, como era esperado, soltou outro clichê:

“Mas este é diferente”.

Wednesday, January 02, 2008

What?


Colagens que fiz para o processo seletivo da Wieden+Kennedy de Portland. Hah, o otimismo é uma coisa que aprendi com a Kathy. Ela deve ter aprendido com a Ana Maria Braga (ou com o Louro José, vai saber).



*Só pra constar: No processo eles pediam para enviar um pdf com qualquer coisa para mostrar "What you do". Daí esse é o primeiro do meu, wow!

Tuesday, November 27, 2007

Momentos em que Kathy superou seus medos.

1)

Olhou em volta. Não tinha ninguém. A respiração ofegante e os olhos procuravam algo em volta quando as mãos trêmulas abriram o saco de biscoitos. Instantes depois, a chamada de uma oferta relâmpago na frente da loja a fez se assustar e soltar o pacote. Alarme falso, mas valeu pela experiência, ela pensou. Os lábios ainda cheios de farelo de biscoito de chocolate cantarolavam a canção dos corredores. Djavan, provavelmente.

2)

Toc. Toc. Um barulho extremamente normal à porta se já não fossem 3h da manhã e ela não morasse sozinha. Seria bom receber uma visita inesperada, mas, a este horário, não poderia ser boa coisa. Isto ela pensaria se estivesse acordada. Mas como estava já adormecida na cama com o seu pijama favorito, Kathy não pensou assim. O Toc Toc insistente entrou dentro do seu sonho e fez parte de uma trama cheia de emoções. Pelo menos por aquela madrugada. No sonho, ela acordava e ia atender a porta. Era o Sergio Reis, junto com Almir Sater e a sua mãe, para uma visitinha. Ao que tudo indicava, mamãe havia bebido um pouco demais no show da dupla e precisou da ajuda dos violeiros para chegar em casa. Na casa dela, há 300km de distância, mas ok. Eles entram. Kathy percebe que está nua, mas ninguém liga. Logo todos tiram a roupa. Um violão é encontrado e Almir Sater vai tocar “lá vai, minha chalana” numa versão mais vulgar. Ele continua batendo no violão para fazer o compasso. Toc Toc. Kathy acorda, aliviada. É a porta, ufa.

3)

Ah, sim claro, ela tem medo de tudo e você espera 3 histórias de superação em um único post? Ah, as expectativas.

Tuesday, November 20, 2007

Outra vez, a mesma coisa de novo

E com a fumaça e o aroma de baunilha que subia, ela ainda não havia se decidido se gostava mais do frio ou do calor. Estamos aqui falando de questões meteorológicas, que é o que se pensa quando se decide passar o tempo em frente à janela com uma caneca de capuccino 3 corações (aquele de sachê).

Ela ainda não havia se decidido ainda. Nos dias frios e chuvosos como aquele, ela adorava o ventinho, o leve arrepio que logo era amenizado pelo agasalho. Aliás, esta é uma vantagem dos climas invernais, a vestimenta. Mas o frio trazia consigo outras vontades além do capuccino e do cigarro. Os pensamentos melancólicos, a vontade de dormir de conchinha e outros complementos que fazem de um cobertor de orelha tudo o que uma mocinha entre 25 e 30 anos espera, mas não conta a ninguém.

Hoje em dia, pega mal uma mulher sair dizendo aí que está a procura de homens, Kathy pensa. Preferia o rótulo de mulher independente, descolada e que pensa muito em sua profissão. Sexo, só casual. Amores, só por sapatos. Casamento, nem pensar. No máximo morar junto.

Mas todo este discurso poderia ser facilmente derrotado se sofresse um olhar mais atento. Mas não havia ninguém com um olhar direcionado tão atento assim, então tudo continuava bem.

Ela voltava cambaleante até a cozinha, deixou a caneca vazia e arrastou as meias brancas até o tapete da sala. A almofada precisava ser amassada para voltar a ter a fofura de antes, e vira e mexe a gata reaparecia com lampejos e pulos atrás de um animal imaginário, ou que Kathy simplesmente não via. Enquanto ela distraia as mãos retirando os pêlos cinza do casaco preto, pensava como seria bom se... bom, melhor não pensar nisto agora. Melhor não deixar toda esta frieza entrar assim pelos furos da lã. Qualquer palavra dita a esmo pode sair por aí e nunca mais voltar. Sabe-se lá o que pode acontecer, não é?

Kathy então fala em voz o trecho de O Homem Lento que acabara de ler: "Existem as palavras. E por trás delas, de lado, em cima, existem as intenções”.

Monday, November 05, 2007

Lacrimosa by Regina Spektor

If my garden would have a fence
Then the rabbits couldn't just come in
And sit on the grass and eat all the flowers
And shit