Vovó com reumatismo
Uma vez, quando criança, Kathy tentou guardar a chuva.
Quando as nuvens pesavam e ficavam cinzas, quando o vento frio e úmido balançava a cortina do seu quarto, quando os ossos da vovó doíam, ela já sabia: Ia chover.
Posicionava-se na janela da sala, que dava para o jardim da casa. Os joelhos no sofá, as mãos ainda pequenas no vidro que, vez ou outra, embaçava por causa de sua respiração quente e tão próxima.
O primeiro pingo caía. Logo outro, e mais outro, fazendo pontos escuros no concreto que impermeabilizou a terra. Só depois que o chão estava todo mais escuro é que se formam as poças, ela teorizou com maestria.
Com as poças começavam a magia das coroas que caem no chão. Pequenos reis e rainhas perdem sua nobreza em ocasiões de chuva. Tudo isto estava muito claro.
Mas bem, um dia Kathy tentou guardar a chuva.
Não a água da chuva, porque isto as bocas de lobo e barras de calça já o fazem muito bem. A chuva mesmo, os pingos caindo, a sua seqüência ritmada, o barulho e, quem sabe, aquele cheirinho que todos amam (na sua existência que data de um pouco mais de duas décadas, Kathy ainda não encontrou viva alma que não goste do cheiro de chuva).
Em mais uma tarde de férias em janeiro, tudo se repetiu. Nuvens cinzas, vento frio, ossos da vovó. Dessa vez, não correu para o sofá. Vestiu sua capa de chuva amarela, com suas botas de chuva azuis e seu guarda-chuva colorido, que mais lembrava um adereço do frevo. Nas mãozinhas, um pote de maionese vazio e com o rótulo semi tirado. Antes de a chuva começar, rodou o pote no ar e pegou o vento. Fechou. Pegou os primeiros pingos. Fechou. Um pouco da poça d’agua. Fechou. E, o mais difícil, capturar as coroas. Mas ela conseguiu.
Tudo guardado no pote. Agora, era simples. Era só esperar para que tudo se separasse novamente. Ela esperou e esperou. Nada aconteceu. Até que se deu conta que tinha esquecido o principal: as nuvens cinzas.
Ficou triste já que, com sua mirrada estatura, nunca conseguiria alcançar as nuvens. A noite, foi dormir na parte de cima do beliche. E suspirou com pequenas lágrimas nos olhos. “Ah, se eu não tivesse medo de avião”.

